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1 de fev de 2018

Capitalismo e Cinema


CAPITALISMO E CINEMA


Nildo Viana*

Resumo: o presente artigo discute a relação entre capitalismo e cinema, sob suas diversas formas. O primeiro aspecto analisado é a produção capitalista do cinema, visando analisar a constituição social dos filmes e seu envolvimento com a sociedade capitalista e, em especial, com o capital cinematográfico. O segundo aspecto analisado é a reprodução fílmica do capitalismo, ou seja, como que os filmes reproduzem as relações sociais da sociedade capitalista em sua produção ficcional. O terceiro aspecto é a forma naturalizante dessa reprodução, expondo o processo de obras ficcionais que naturalizam a sociedade capitalista. Por último, há uma análise de filmes que apresentam uma versão ficcional crítica do capitalismo.
Palavras-Chave: Capitalismo, Capital Cinematográfico, Cinema, Reprodução Fílmica, Crítica.

Abstract: This article discusses the relationship between capitalism and cinema, in its various forms. The first aspect analyzed is the capitalist production of film, aiming to analyze the social constitution of the films and her involvement with capitalist society and, in particular, the film capital. The second aspect analyzed is the filmic reproduction of capitalism, ie, as the films reproduce the social relations of capitalist society in its fictional production. The third aspect is the naturalizing such reproduction, exposing the process of fictional works that naturalize capitalist society. Finally, there is an analysis of films that feature a fictional version of the critique of capitalism.
Keywords: Capitalism, Film Capital, Movie, Filmic Reproduction, critical.

O presente artigo busca analisar a relação entre cinema e capitalismo. A relação entre cinema e capitalismo pode ser observada por vários aspectos. O primeiro aspecto seria a percepção de que o cinema é um produto do capitalismo e isto está ligado ao processo de discussão sobre os meios oligopolistas de comunicação, tal como é destacado por alguns autores[1]. Tendo em vista que um filme é um produto social e histórico, e ainda coletivo, pois ao contrário de outras formas de arte raramente é produzido individualmente, sendo geralmente produzido por uma equipe, então é fundamental entender o seu processo de produção no interior da sociedade capitalista.
Outro aspecto é como o capitalismo é reproduzido no cinema, ou seja, como os filmes reproduzem as relações sociais do capitalismo, em aspectos mais particulares ou mais amplos. A reprodução fílmica do capitalismo é algo natural, pois aqueles que produzem os filmes vivem nesta sociedade e tematizam questões e fenômenos dessa sociedade, e, mesmo quando pensam outras sociedades, historicamente anteriores ao capitalismo, o fazem a partir da percepção produzida nesta sociedade sobre as demais. Assim, o capitalismo produz o cinema e o cinema reproduz o capitalismo e, dependendo do que se focaliza, irá se privilegiar o processo social de constituição do cinema e das produções cinematográficas ou a produção fílmica em si.
Um terceiro aspecto, derivado desse primeiro, é que tal reprodução pode ser naturalizante, tomando a sociedade capitalista como natural, ou crítica, na qual o capitalismo é apresentado sob forma questionadora e mostrando suas contradições e efeitos negativos sobre os seres humanos.
Nesse sentido, as relações entre as produções cinematográficas e a sociedade capitalista são complexas e realizaremos uma análise de alguns aspectos fundamentais dessa relação. Ou seja, analisaremos a produção capitalista do cinema, a reprodução fílmica do capitalismo sob a forma naturalizante e sob a forma crítica[2].
O Capital Cinematográfico, ou o a Produção Capitalista do Cinema.
A forma de abordar a questão do cinema enquanto um processo de produção cultural sempre remete aos termos “indústria cultural” e “indústria cinematográfica”. Estes termos, no entanto, são problemáticos, pois a idéia de indústria é relativamente “neutra”, focando mais a forma do que os elementos essenciais do processo de produção, que é capitalista. A origem dessa terminologia se encontra na sociologia norte-americana, através da ideologia da “sociedade industrial”[3]. O mais adequado é trabalhar com os conceitos de capital comunicacional (VIANA, 2008) e capital cinematográfico (VIANA, 2009a; VIANA, 2012). O capital cinematográfico é muito pouco compreendido, assim como a chamada “indústria cultural” em geral.
Existem duas concepções da indústria cultural que influenciam a concepção referente ao capital cinematográfico, chamado como “indústria cinematográfica”: a concepção apologética e a concepção apocalíptica. A concepção apologética é caracterizada por buscar exaltá-la e colocar que ela é expressão do público ou da realidade; a concepção apocalíptica se caracteriza por considerar a “indústria cultural” como um sistema de dominação ligado aos interesses capitalistas. Ambas as concepções são equivocadas, embora a última esteja mais próxima da realidade do que a primeira.
Sem dúvida, o capital comunicacional reproduz os valores e concepções dominantes e visa o lucro acima de qualquer outra coisa. No entanto, existem contradições no interior do capital comunicacional. Além dele não poder controlar tudo o tempo todo, ele precisa garantir o lucro. A concepção por detrás da produção cinematográfica, ou seja, a mensagem repassada pelo filme, tem uma importância menor que a necessidade do lucro para o capital cinematográfico. Por isso, o capital comunicacional produz e divulga filmes, obras de arte, livros, etc., que são contrários aos interesses, valores, concepções, representações do capitalismo. Por isso, existe a possibilidade de produção crítica no interior do capital comunicacional e do capital cinematográfico, mais especificamente.
Essa dinâmica atua no caso do capital cinematográfico sob forma específica, mas mantem as características gerais de todo o processo de produção capitalista no âmbito cultural. Se existe público para filmes críticos, então ela irá produzir tais filmes. Mas os filmes intencionalmente críticos são poucos, pois não existe público tão grande assim para tais produções. Além disso, os cineastas e agentes da produção cinematográfica podem fazer grandes obras utilizando metáforas, sátiras, etc., tornando o seu caráter crítico de difícil percepção para os dirigentes do capital cinematográfico, que observarão apenas o retorno financeiro da produção (ou, no caso de alguns, apenas seus aspectos técnicos ou a recepção do público). Por último, cabe destacar que muitos produzem filmes que podem ser interpretados como crítica do capitalismo sem que os seus produtores tivessem a menor intenção disto.
Assim, o capital cinematográfico não reproduz a dinâmica de qualquer produção capitalista e seu objetivo fundamental é o lucro. Isso gera uma contradição no seu interior, pois o capital cinematográfico, sendo um setor do capital e que compartilha, através dos seus capitalistas, os valores, interesses, representações, de uma determinada classe, a capitalista, e por isso a mensagem que gostaria de repassar seria a que é comum para a mentalidade burguesa. Contudo, ela visa o lucro e existe público que quer outras mensagens ou que quer variações ou pelo menos formas mais reflexivas de produção fílmica, tal como os setores intelectualizados da sociedade, gerando diversos públicos que são levados em consideração quando se produz um filme, mas suas contradições possibilitam esta produção crítica.
Isto é tão verdadeiro que até mesmo o capital cinematográfico é objeto de críticas por parte de filmes, inclusive hollywoodianos. Podemos citar, neste contexto, alguns filmes que realizam tal crítica do capital cinematográfico: Belíssima, Luchino Visconti (Itália, 1951); Desprezo, de Jean-Luc Godard (França, 1963)[4], O Dia do Gafanhoto, de John Schlesinger (EUA, 1975), O Mundo Proibido, Ralph Bakshi (EUA, 1992); Cecil Bem Demente; John Waters (EUA, 2000), e, principalmente, uma das grandes obras do cinema de todos os tempos: O Crepúsculo dos Deuses, Billy Wilder (EUA, 1950), a mais bem feita crítica a Hollywood.

A Reprodução Fílmica do Capitalismo, ou o Capitalismo na Tela
Existem várias formas de reprodução fílmica do capitalismo, isto é, a reprodução do capitalismo através do cinema. Podemos destacar, em primeiro lugar, o filme como reconstituição histórica inintencional, ou seja, o filme, mesmo que seus produtores não tenham a intenção, acaba reconstituindo a história de sua época, ou seja, de determinado momento da sociedade capitalista. Porém, esta reconstituição histórica inintencional é feita sob variadas perspectivas, dependendo da época, agentes de produção e outros elementos envolvidos em determinada produção cinematográfica. Outra forma é o filme que intencionalmente pretende revelar elementos da sociedade capitalista. Este tipo de filme é mais raro e é, geralmente, mais crítico e forte. Os seus agentes de produção tentam expressar as relações sociais na sociedade capitalista e ao fazê-lo, revelam seus problemas, contradições, limitações, consequências. Outra forma de mostrar o capitalismo através do cinema é por intermédio da própria história do cinema, isto é, através da sucessão de filmes que assumem determinadas características, valores, posições, que são típicos da época e são determinados pela lógica do desenvolvimento capitalista.
No entanto, uma coisa é a intencionalidade dos agentes de produção do cinema, outra coisa é a interpretação e significação que o público, os críticos e pesquisadores fazem[5]. Um filme produzido por quem não tem a menor intencionalidade crítica ou de abordar o capitalismo pode ser considerado, pelo intérprete, como uma metáfora do capitalismo. A proliferação de filmes de ficção científica que retratam um futuro sombrio, pode ser interpretada como apenas uma manifestação ficcional da realidade atual, isto é, do capitalismo. Isto decorre do fato de que o material (a trama), os elementos constitutivos, a tecnologia e seu processo de produção, e os agentes da produção (o diretor, os roteiristas e toda a equipe de produção) respiram o capitalismo e são produtos do capitalismo, e, assim, o que fazem em matéria de ficção é transportar a realidade da sociedade capitalista para uma outra realidade que é sua reprodução sob outra forma. Até nos filmes históricos, que buscam retratar outras épocas, a marca da sociedade capitalista está presente, embora as roupas estejam fora de moda, as questões de fundo são as da sociedade capitalista ou as da época interpretadas e apresentadas da perspectiva de alguém que vive no capitalismo e não consegue escapar das suas determinações.
Em síntese, existe uma diversidade de formas de reproduzir o capitalismo no cinema, seja focalizando o processo de trabalho, a vida dos trabalhadores, o desemprego, o mercado, a cidade, as relações amorosas, entre milhares de outros exemplos, seja focalizando as instituições, valores, efeitos psíquicos, da sociedade capitalista. É possível uma reprodução da totalidade ou dos aspectos fundamentais do capitalismo, como também de aspectos secundários ou aparentemente desligados de seus elementos mais determinantes.
O Capitalismo no Cinema sob a Forma Naturalizante
Dentre as várias formas que o capitalismo pode ser abordado cinema a mais comum é a descritiva, isto é, o tipo de produção que apenas reproduz a sociedade existente. Se tal descrição revela os seus problemas sociais, então assume um caráter que pode ser considerado com intenção crítica; caso contrário, se focaliza questões isoladas em si mesmas ou mesmo sem grande relevância social, ou apenas retrata a sociedade burguesa como algo natural, então assume a feição apologética com caráter naturalizante. O caráter descritivo significa que as posições daqueles que fazem a descrição não são explícitas, são ocultadas, de tal forma que aparenta uma neutralidade, o que, na verdade, não existe. Reproduzir a miséria dos trabalhadores em um filme é mera descrição e isto pode ser considerado sob diversas maneiras (mas aqui o problema é da interpretação e não da mensagem enviada), mas os produtores do filme tinham uma intencionalidade, que poderia ser mostrar a situação precária de vida, naturalizar a miséria, denunciar a superexploração, tratar de um fenômeno que atrairia a atenção do público, etc.
Em cada uma dessas opções, há uma perspectiva de classe e uma concepção do fenômeno, inclusive posição política, não necessariamente partidária (ligada a partido político, embora isso também ocorra com bastante frequência). Aqueles que querem denunciar a superexploração dos trabalhadores são os que estão preocupados com o “excesso” e querem que alguém, o governo, por exemplo, tome alguma providência. Já os que, de forma malthusiana, querem naturalizar, objetiva apenas dizer que a vida é assim mesmo e por isso é preciso ver esta realidade e deixá-la de lado, pois é preciso se preocupar com outras coisas ou apenas minimizar com filantropia e coisas semelhantes. Os que querem mostrar a situação precária de vida dos trabalhadores, apenas se contentam em dizer que as coisas estão erradas e que talvez seja preciso mais “humanismo”, mais “filantropia”, mais “políticas sociais”. Diferente é um filme que vai além da descrição, que mostra o questionamento, ou seja, um caráter crítico, e aponta para a necessidade e a possibilidade de transformação social. Desta forma, há a descrição pretensamente crítica e a apologética.
Podemos citar como exemplo do primeiro caso os filmes do chamado “neorrealismo italiano”, tal como os filmes de Luchino Visconti (Terra Treme, 1948; Rocco e seus Irmãos, 1960), Roberto Rossellini (Roma, Cidade Aberta, 1945), Vittorio de Sica (Ladrões de Bicicleta, 1948), Giuseppe de Santis (Arroz Amargo, 1948), entre outros. O neorrealismo foi aceito entusiasticamente por diversos setores da intelectualidade e da esquerda, mas posteriormente alguns começaram a perceber as limitações destes filmes, que não ultrapassam a realidade existente, não apontando para uma crítica mais efetiva e para a concepção da possibilidade de transformação social. A perspectiva de classe por detrás desta produção cinematográfica não era proletária e sim ligada às classes auxiliares da burguesia, unindo interesses de setores da produção cinematográfica com setores político-partidários, tal como o PCI – Partido Comunista Italiano.
O segundo tipo de filme é o mais comum e é constante nas grandes produções hollywoodianas, tal como os filmes de ação que pregam a hegemonia mundial norte-americana, bem com outros filmes que naturalizam as relações sociais existentes em nossa sociedade, tal como Love Story, Arthur Hiller (EUA, 1970) ou Wind – A Força dos Ventos, Carroll Ballard (EUA, 1992). O primeiro faz apologia do amor romântico e o torna o centro da vida humana; o segundo coloca a competição (uma das características fundamentais das relações sociais capitalistas e da mentalidade produzida por elas) como centro da história e a vitória como o objetivo fundamental a ser conquistado.
Porém, existem outras formas de reprodução fílmica do capitalismo. Há também os filmes que retratam momentos históricos específicos, tal como os filmes mudos de Serguei Eisenstein (O Encouraçado Potemkim, URSS, 1925; A Greve, URSS, 1924; Outubro, URSS, 1928) e vários outros que surgiram colocando situações sociais sob a forma de ficção ou utilizando acontecimentos históricos como base para a produção cinematográfica[6].
A Crítica do Capitalismo no Cinema
A forma mais importante, no entanto, é aquela reprodução fílmica do capitalismo que ultrapassa o nível da descrição e deixa explícito o posicionamento da equipe de produção ou daqueles que conseguem impor sua posição em determinada produção fílmica. É aquela que não é naturalizante e sim crítica. Sem dúvida, existem várias formas de crítica social no cinema, desde a totalizante até a fragmentária, que pode ser moralista ou pessimista (VIANA, 2013). Diversos filmes realizam uma crítica social moralista, tais como diversos filmes norte-americanos que questionam o trabalho em favor da família, como O Mentiroso, Tom Shadyac (EUA, 1997), uma de suas melhores expressões. O nosso foco aqui, no entanto, será apenas a crítica social totalizante, radical, inclusive sem abordar suas diferenças internas[7].
Este é o caso dos filmes produzidos na Alemanha, ainda durante o cinema mudo, principalmente os filmes expressionistas. Destacaríamos, deste período, entre outros, Metrópolis, Fritz Lang, (Alemanha, 1927); Tartufo, F. Murnau (Alemanha, 1926); O Gabinete do Doutor Galigari, Robert Wiene, (Alemanha, 1920), apesar deste último ter seu final e início deformado pelo diretor (VIANA, 2012). Também é o caso do realismo poético francês dos anos 30, tal como os filmes de René Clair (principalmente A Nós a Liberdade, França, 1931) e os de Jean Renoir (principalmente A Regra do Jogo, França, 1936). É claro que o momento histórico e o caráter incipiente do capital cinematográfico da época facilitavam a produção destas obras. Os filmes do cineasta surrealista Luis Buñuel também merecem ser citados neste contexto, tal como Anjo Exterminador (México, 1962), entre outros. Os filmes do Western Spaghetti, de Sérgio Leone, Sérgio Corbucci e Damiani Damiano são outros exemplos. Alguns focalizam a expansão capitalista nos Estados Unidos, mas a maioria toma a Revolução Mexicana e a luta dos trabalhadores contra a tirania dos governos mexicanos.
Há também os filmes de terror de George Romero, tal como A Máscara do Terror (França/Canadá/EUA, 2000) e seus filmes de zumbis e, inclusive, filmes dirigidos por outros cineastas que são hollywoodianos e desprezados por isso, mas focalizam aspectos da sociedade capitalista de forma crítica, tal como A Coisa, Larry Cohen (EUA, 1985) e Corrosão – Ameaça em seu Corpo, Phillip Brophy (Austrália, 1993), entre outros. Inclusive antigos filmes B, como A Pequena Loja dos Horrores, Roger Corman (EUA, 1960), bem como os filmes de ficção científica dos anos 50 sempre colocando os perigos da radioatividade e da ambição capitalista que gera o seu uso indiscriminado.
Assim, os filmes de ficção científica, muitas vezes desprezados, bem como os de terror, revelam aspectos essenciais da sociedade capitalista. Vários filmes poderiam ser citados neste sentido como Matrix, Andy e Larry Wachowski (EUA, 1999); Mad Max, George Miller (Austrália, 1979); Rebelião no Século 21, Charles Band (EUA, 1990). Entre os filmes de terror, além dos de George Romero, há os dirigidos por John Carpenter, tal como Eles Vivem (EUA, 1988); Christine – O Carro Assassino (EUA, 1983); Pesadelo Mortal (EUA, 2005), que avançam na crítica do capitalismo e alguns filmes fantásticos, como Momo e o Senhor do Tempo, Johannes Schaaf (Alemanha, 1986), O Fabuloso Mundo de Billy Liar, John Schlesinger (Inglaterra, 1963); Donnie Darko, Richard Kelly (EUA, 2001), poderiam ser citados como exemplos de produções cinematográficas críticas[8]. Isto quer dizer, em poucas palavras, que não são apenas os filmes “realistas” ou os dramas, que reproduzem a sociedade capitalista ou seus aspectos, ou mesmo que realizam a sua crítica, pois a ficção científica, o terror, o fantástico, o faroeste[9], também o fazem.
Sem dúvida, muitos outros poderiam ser citados, tal como os filmes políticos de Costa-Gravas e de Elia Kazan. Até alguns filmes infantis poderiam ser citados, como Formiguinha Z, Eric Darnell e Tim Johnson (EUA, 1998), História Sem Fim, Wolfgang Petersen (Alemanha, 1988). Também os filmes que abordam instituições e relações sociais específicas do capitalismo, como A Sociedade dos Poetas Mortos, Peter Weir, (EUA, 1989) e Um Estranho no Ninho, Milos Forman (EUA, 1975) no qual se aborda a educação autoritária e o hospício, respectivamente, contribuem com uma concepção do caráter da sociedade moderna. Uma série de filmes recentes aborda questões atuais do capitalismo: Clube da Luta, David Fincher (EUA, 1999), O Show de Truman – O Show da Vida, Peter Weir (EUA, 1998); V de Vingança, James McTeigue (EUA/Inglaterra/Alemanha, 2005), entre outros.
Obviamente que alguns filmes se destacam por reconstituir o capitalismo de forma mais crítica e ampla, tal como é o caso de Momo e o Senhor do Tempo; A Nós a Liberdade; Quando Explode a Vingança, Sérgio Leone (Itália, 1972), entre outros. O filme Momo e o Senhor do Tempo mostra não só como o capitalismo extrai o tempo dos indivíduos até a exaustão, como também como subverte os valores, abole a comunicação entre os seres humanos e corrompe os indivíduos. Já o filme A Nós a Liberdade mostra o caráter destrutivo do trabalho alienado, da prisão e da escola, além também de opor valores antagônicos e outros aspectos da sociedade capitalista.
Em síntese, existe uma diversidade de filmes sobre o capitalismo. Seja focalizando o processo de trabalho, a vida dos trabalhadores, o desemprego, o trabalho alienado, seja focalizando as instituições, valores, efeitos psíquicos, da sociedade capitalista. Há diversos filmes sobre acontecimentos históricos, sobre juventude, sobre meios oligopolistas de comunicação, sobre guerra, sobre destruição psíquica dos indivíduos, sobre meio ambiente, entre inúmeras outras questões sociais importantes em nossa época.
No entanto, apesar disso, a formação cultural e a não-reflexão faz com que muitos filmes não sejam percebidos como realmente são, ou não percebendo o que ele mostra. Esse já é o problema da recepção dos filmes. Muitos filmes críticos são vistos como se não fossem nada mais do que mera ficção e isso é mais forte no caso de filmes sem intencionalidade crítica que mostram aspectos da sociedade capitalista que nem sequer são percebidos, o que remete para o problema da forma de assistência dos filmes, pois isto, em parte, é derivado da forma de assistência contemplativa, mecânica ou formalista que grande parte dos assistentes realiza das obras cinematográficas (VIANA, 2009b). Tal percepção é reforçada pelo preconceito e o elitismo cultural de muitos analistas e críticos do cinema.
Considerações Finais
Essas reflexões sobre a relação entre cinema e capitalismo nos permitem a chegar a algumas conclusões. A mais importante delas é perceber que essa relação está em todos os filmes, sob diversas formas, que revelam distintas possibilidades de assistência e análise. A sociedade capitalista interfere em todos os seus produtos culturais, seja no seu processo de produção (desde a formação cultural dos indivíduos que realizam tal produção até o processo de transformação da cultura em mercadoria, o que pressupõe financiamento, distribuição, venda, etc.) seja no seu conteúdo, que reproduz, desde a forma naturalizante já que é o ar que se respira até a forma crítica.
O amplo universo de material fílmico existente traz uma multiplicidade de possibilidades de análise da sociedade capitalista, desde que se supere as formas prejudiciais de assistência, para o caso dos que não são pesquisadores do cinema, através de uma assistência crítica (VIANA, 2009b) ou que se supere as análises limitadas que são produzidas por muitos pesquisadores embasados em concepções ideológicas ou no mero descritivismo pobre, que é dominante (VIANA, 2009a; VIANA, 2012). Ou seja, é preciso, no caso da assistência cotidiana, de uma assistência crítica e, no caso de pesquisadores, possuir recursos teórico-metodológicos adequados para realizar a análise fílmica. O capitalismo está no filme, enxerguem ou não aqueles que o assistem.




* Professor da UFG – Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia pela UnB – Universidade de Brasília. Email: nildoviana@ymail.com
[1] Destacaríamos a obra inaugural da reflexão sobre indústria cultural, de Adorno e Horkheimer (1986) e alguns comentários contemporâneos: Santos (2008); Souza (2008); Viana (2008). Uma das melhores análises, no nível teórico, sobre o capital cinematográfico, é a de Prokop (1986).
[2] A bibliografia que aborda tais questões são problemáticas devido aos procedimentos teórico-metodológicos adotados. As abordagens que partem da análise da ideologia nos filmes é problemática, não só por usar o termo ideologia de forma equivocada e em contradição com sua base teórica, no caso o marxismo, como é o caso de Lebel (), como também por seus recursos metodológicos e teóricos serem precários. Os filmes não podem ser ideológicos, no sentido marxista do termo, e sim ideologêmico, pois não manifestam as ideologias existentes em toda sua complexidade ou em sua totalidade e sim fragmentos delas, ideologemas, tal como no filme Teoria Mortal (), que reproduz o ideologema da luta pela sobrevivência (VIANA, 2013).
[3] A ideologia da sociedade industrial foi constituída por diversos sociólogos norte-americanos e acabou tendo alguns reprodutores na Europa Ocidental. Um dos autores que se destaca na produção dessa ideologia é Dahrendorf (1977). Os representantes da Escola de Frankfurt acabaram, apesar de suas divergências com tais sociólogos, reproduzindo parcialmente sua linguagem, tal como Herbert Marcuse.
[4] Os filmes Belíssima e Desprezo são europeus e estão fora do circuito hollywoodiano, mas sua produção foi realizado através do capital cinematográfico italiano e francês, respectivamente, e embora seja um capital diferenciado, por não ter o mesmo poderio que o norte-americano, como também ter outro público principal, mas não mantém os mesmos interesses que o grande capital cinematográfico mundial
[5] Sobre isso, consulte-se Viana (2012).
[6] Existem também os documentários que ou focalizam aspectos do capitalismo ou apresentam uma concepção mais abrangente. O documentário Surplus, Erik Gandini (Suécia, 2003), por exemplo, coloca em questão o consumismo, apesar de partir de posições questionáveis (o primitivismo), assim como The Corporation, Mark Achbar (Canadá, 2003), que mostra a importância e força das grandes corporações.  Porém, não consideramos que o documentário seja um filme, pois este é uma obra de arte, logo, uma “expressão figurativa da realidade” (VIANA, 2007) e por isso, tal como colocamos em outro lugar, não se caracteriza como filme (VIANA, 2012).
[7] No interior de uma crítica totalizante do capitalismo, podemos dividir entre a crítica radical e sua inspiração pode ser o marxismo, o anarquismo, etc., e a crítica utópico-abstrata, inspirada num humanismo abstrato que para da ideia da bondade natural do ser humano (VIANA, 2013).
[8] Este é o caso de vários filmes que são extremamente criticados, tal como Mulher-Gato, Jean Christophe Comar (EUA, 2004), por vários motivos, tal como sua pobreza formal (que, realmente, neste aspecto deixou muito a desejar), etc., mas revelam aspectos importantes da sociedade capitalista, tal como o capital farmacêutico e sua busca do lucro a qualquer custo (VIANA, 2009b; MARQUES, 2009).
[9] Aqui citamos apenas os filmes de faroeste do cinema italiano, mas há filmes como os de John Ford, tal como No Tempo das Diligências (EUA, 1939); Vinhas da Ira (EUA, 1940), Como Era Verde Meu Vale (1941), que fazem parte da tendência de reprodução e crítica intencional do capitalismo.


Referências

ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. 2ª edição, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
DAHRENDORF, Ralph. Sociologia e sociedade industrial. In FORACCHI, Marialice e MARTINS, José de Souza (orgs.). Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977.
LEBEL, Jean-Paul. Cinema e Ideologia. Lisboa: Estampa, 1975.
MARCUSE, Herbert. Ideologia da Sociedade Industrial. 4ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
MARQUES, Edmilson. Para Interpretar as Produções Cinematográficas. In: VIANA, Nildo. Cinema e Mensagem. Análise e Assimilação. Porto Alegre: Asterisco, 2012.
PROKOP, D. O Papel da Sociologia do Filme no Monopólio Internacional. In: FILHO, Ciro M. (org.). Prokop. São Paulo: Ática, 1986.
SANTOS, Jean Isídio. Cinema e Indústria Cultural. In: Viana, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008.
SOUZA, Erisvaldo. A Renovação da Teoria da Indústria Cultural em Prokop. In: Viana, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008.
VIANA, Nildo. A Concepção Materialista da História do Cinema. Porto Alegre: Asterisco, 2009a.
VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007.
VIANA, Nildo. Cinema e Mensagem. Análise e Assimilação. Porto Alegre: Asterisco, 2012.
VIANA, Nildo. Como Assistir um Filme? Rio de Janeiro: Corifeu, 2009b.
VIANA, Nildo. Imaginário e Ideologia. As Ilusões no Pensamento Complexo e nas Representações Cotidianas. Revista Espaço Livre. Vol. 08, num. 15, jan-jul. 2013.
VIANA, Nildo. Para Além da Crítica dos Meios de Comunicação. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008.
VIANA, Nildo. Quadrinhos e Crítica Social. O Universo Ficcional de Ferdinando. Rio de Janeiro: Azougue, 2013.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Capitalismo e Cinema. ALCEU - Revista de Comunicação, Cultura e Política. PUC-RJ, v. 14 - n.27 - p. 66 a 76 - jul./dez. 2013.

29 de dez de 2017

Em quarta temporada, 'Black Mirror' questiona relações humanas essenciais

Em quarta temporada, 'Black Mirror' questiona relações humanas essenciais


Luciana Coelho


























A atriz Letitia Wright em episódio da quarta temporada de "Black Mirror"


Qual o seu maior medo? Perder o filho? Ser perseguido e acossado? Se descobrir vigiado e ser punido por aquilo que julgava estar fazendo em privado? Ser manipulado pelos desígnios de outra pessoa? Ou nunca encontrar sua alma gêmea, fadado a um sem-fim de relações inócuas?
"Black Mirror", a série criada pelo britânico Charlie Brooker que questiona os reveses da nossa simbiótica relação com a tecnologia, volta à Netflix nesta sexta (29) com uma quarta temporada igualmente provocativa, embora menos ambiciosa e inspirada que as anteriores.
Se antes no centro da série estavam nosso comportamento como grupo e a relação com hardwares e softwares em si, a atenção, ao menos nos episódios mais bem sucedidos da nova leva, recai sobre as relações humanas essenciais (família, sexo, trabalho) e como as temos filtrado por meios nem sempre benignos.
O trunfo é "Arkangel", episódio dirigido por Jodie Foster, que já trabalhara atrás da câmera para a plataforma de streaming em dois episódios de "Orange is the New Black" e um da proscrita "House of Cards".
Na estreia da temporada, ela aborda o laço mãe e filha e o medo atávico que os pais têm de perder a prole, no sentido literal e figurado.
Após ver a filha pequena sumir em um parquinho, uma mãe (Rosemarie DeWitt) resolve oferecer a menina como cobaia para uma empresa de monitoramento parental. O produto em teste é um implante com um filtro similar ao que impede crianças de assistirem a programas inadequados para sua idade, mas que a poupa do mundo real.
Em "Hang the DJ", que evoca Smiths e faz lembrar o capítulo mais pop da temporada anterior, "San Junipero", um casal se submete a um aplicativo de namoro que dita do momento do primeiro encontro ao que comerão e o tempo de vida que terá o relacionamento, até que se ache o parceiro definitivo. Pode ser superlativo, mas não é nada tão diferente do que temos em curso.
No mais estrelado dos seguimentos, "USS Callister", um programador genial prende versões virtuais de seus afetos e desafetos em um jogo que emula o visual "Star Trek", no qual ele tem todos os poderes e glórias.
Jesse Plemons, Jimmi Simpson e Cristin Milioti, que nos últimos anos se destacaram como coadjuvantes em "Breaking Bad", "WestWorld" e "How I Met Your Mother", respectivamente, estão no elenco.
Os episódios não são aterradores como nas demais temporadas, talvez por tratarem mais de presenças do que de ausência; mais de relações comuns do que de pontos fora da curva.

Mesmo assim, continuam eficazes ao nos fazer questionar se temos usados a tecnologia para benefício nosso e de outras pessoas. É um bom jeito de encerrar este ano.
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Publicação original:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/lucianacoelho/2017/12/1946743-em-quarta-temporada-black-mirror-questiona-relacoes-humanas-essenciais.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsfolha 

2 de out de 2017

O Filme "O Jovem Karl Marx" para assistir



Filme, "O Jovem Karl Marx". Direção: Raoul Peck. Ano: 2017.
Legenda em português: Nildo Viana Veja comentário sobre o filme:
Karl Marx no Cinema - http://informecritica.blogspot.com.br/2017/08/karl-marx-no-cinema.html http://informecritica.blogspot.com.br... O Filme "O Jovem Karl Marx" apresenta parte da juventude de Karl Marx, de 1842 até 1848, sua vida pessoal, dilemas, bem como as polêmicas e lutas políticas em anos conturbados politicamente e sua passagem e expulsão de diversos países (foi expulso da Alemanha, França e Bélgica). Dirigido por Raoul Peck, diretor haitiano e que ficou conhecido com seu documentário "Eu não sou seu negro", que tematiza a questão racial, é um filme extremamente importante por destacar uma das figuras mais famosas da história do pensamento ocidental e das lutas políticas da modernidade. O destaque do filme é a luta de Marx para fazer avançar o movimento operário, numa época dominada pelo "socialismo sentimental", o que o faz, ao lado de Engels, entrar num embate político e intelectual, cujo resultado foi o enfraquecimento do utopismo e constituição de uma expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado, o marxismo. O filme ajuda a compreender melhor Karl Marx, o seu contexto histórico e evolução política e intelectual. O filme foi exibido, no Brasil, pioneiramente pelo Ruptura - Espaço Cultural (http://rupturaespacocultural.blogspot...) e agora é disponibilizado gratuitamente no Youtube. Veja também: A teoria social de Karl Marx (https://www.youtube.com/watch?v=nWq5O...). O que é marxismo? (https://www.youtube.com/watch?v=cs6ya...) A Ideologia segundo Marx (https://www.youtube.com/watch?v=5mBwk...) Karl Marx: Comunismo e Autogestão Social (https://www.youtube.com/watch?v=j1xqb...)

8 de ago de 2017

Karl Marx no Cinema - Um breve comentário sobre o filme de Raoul Peck, "O Jovem Karl Marx"



KARL MARX NO CINEMA

Nildo Viana

O filme “O Jovem Karl Marx” (Raoul Peck, França/Alemanha, 2017) aborda um determinado período da vida de um dos mais conhecidos e polêmicos pensadores da história da humanidade, bem como um não menos controverso militante revolucionário. Marx teve uma vida atribulada, não apenas pela luta política e polêmicas intelectuais, mas também pelas relações pessoais e situações de privação material pelas quais experimentou. A sua obra teve repercussão em círculos políticos e intelectuais restritos e ligados ao movimento operário de sua época e isso se ampliou com a publicação de O Capital e outros processos sociais e culturais, mas ele nunca foi, em vida, um pensador aclamado e reconhecido pelo chamado “grande público” ou pelos hegemônicos no interior da classe intelectual. No final de sua vida, mesmo com a ampliação de sua presença intelectual, ele ainda tinha o reconhecimento que viria a ter posteriormente.

Quando ele escreveu O Capital, colocou as duas formas pelas quais tentaram minimizar a importância de sua obra: o silêncio e a pseudocrítica. Essas formas se repetem historicamente em relação a outros casos. O silêncio significa fazer de conta que determinada obra ou concepção não existe ou não tem importância e a pseudocrítica é a tentativa de desqualificar a obra ou o autor (e a substituição da ideia pelo ataque pessoal é uma das formas mais baixas e desprezíveis de tentar “ganhar um debate” ou marginalizar um intelectual ou pensador). Apesar disso, a importância real da obra de Marx e o apoio e obra de alguns indivíduos tornaram possível a popularização de sua teoria. No entanto, junto com isso veio a vulgarização e deformação (mais fácil depois que o pensador morre, pois ele não pode, nesse caso, corrigir os seus “intérpretes” e “seguidores”), sendo que a vulgarização é uma tendência da popularização e ela traz em si elementos de deformação. No entanto, há uma deformação mais profunda que emerge com os chamados “intérpretes canônicos” e simplificadores (mais acessíveis do que o pensador em questão), ligados a interesses, como foi o caso das deformações social-democrata, leninista (e derivados: stalinista, trotskista, maoísta, etc.).

Assim, houve um reconhecimento posterior de Marx, chegando, inclusive, a tornar-se “moda” e “hegemonia” em determinados momentos e lugares (como no capitalismo estatal ou na década de 1970 na América Latina, nos meios políticos e intelectualizados), mas através das versões deformadas do seu pensamento. Marx tornou-se um pensador clássico da sociologia, economia, filosofia, etc. e influente nas mais diversas ciências humanas e até em algumas ciências naturais. Isso se deve, em parte, à sua erudição e força de suas ideias, em parte a apropriação do seu pensamento por diversos setores da sociedade com distintos interesses. Tratava-se, na maioria absoluta dos casos, de um Marx domesticado, mais um cientista ou então um político revolucionário tão banal quanto os demais que povoam o barco imaginário das celebridades de esquerda.

Nesse contexto, um filme sobre Karl Marx surpreende. E isso mais ainda na atual conjuntura mundial, onde o capitalismo encontra dificuldades em manter o seu atual regime de acumulação (integral) e sua forma política, o neoliberalismo, e que por isso acaba tendo que tomar medidas extremas para combater a desestabilização, assumindo a forma discricionária e executando políticas de austeridade. Numa época em que a hegemonia convencionou não só a descartar Marx em favor de modismos acadêmicos fúteis e superficiais, sob o ridículo rótulo de “pós-modernismo” (pós-estruturalismo) e derivados e semelhantes (multiculturalismo, neoliberalismo, gênero, identidades, etc.), como também, como parte desse processo, desenvolveu fortes tendências que defendem o irracionalismo, a recusa da teoria, o pragmatismo, o praticismo, etc.

No entanto, essa situação é contraditória. Por um lado, a hegemonia burguesa, fundada atualmente no paradigma subjetivista, domina absoluta, com poucas vozes dissonantes, mas, por outro, o regime de acumulação integral entra num período de desestabilização que ameaça a se tornar uma nova crise do capitalismo. A crise no capitalismo pode e tende, efetivamente, a se tornar uma crise do capitalismo[1]. Nesse contexto, alguns sintomas mostram o que tende a vir pela frente. No presente encontramos sinais da tendência que constituirá o futuro.

O filme de Raoul Peck é um destes sinais. O filme, em si, retrata a vida e os embates políticos e intelectuais (inseparáveis e só na mente dos ingênuos e ignorantes o mundo das ideias está separado do mundo real e da luta política) que vai desde 1842 até 1848. O filme surpreende não só pelo tema, mas também pela abordagem e, ainda, por sua atratividade. A abordagem poderia ser mais uma deformação do pensamento e posição política de Karl Marx, caso se inspirasse em algumas das formas do pseudomarxismo. No entanto, isso não ocorre, a não ser alguns deslizes e anacronismos[2], alguns perdoáveis por ser uma obra ficcional. A atratividade[3] do filme se deve à competência do diretor que soube dar vida e animação ao filme, sem repetir o que é comum em filmes intelectualizados produzidos por certos diretores europeus.

O filme de Raoul Peck, cineasta haitiano[4], é uma obra ficcional, sobre um indivíduo complexo que foi uma figura histórica e política marcada pela polêmica, e baseado em acontecimentos reais. Esses acontecimentos reais são trazidos para o mundo ficcional e são complementados por elementos ficcionais adicionais, especialmente nos detalhes dos diálogos e certos acontecimentos específicos.
Trata-se de um filme muito interessante e é importante para servir de introdução ao pensamento de Marx e elementos de sua biografia (o período abarcado de 1842 até 1848) e ainda tem o elemento adicional de ser útil pedagogicamente, podendo ser utilizado em sala de aula sob diversas formas e com diversos objetivos.

O filme tem inúmeros aspectos que poderiam ser discutidos, mas não será possível discutir todos, embora nossa breve reflexão aponte para vários deles, especialmente os que consideramos mais importantes. No entanto, no presente texto, vamos focalizar a contribuição do filme para uma discussão e compreensão do indivíduo Karl Marx e do seu pensamento.

Quem Foi o “Jovem Marx”?

O filme retrata a vida de Marx de 1842 a 1848 e foi intitulado “O Jovem Karl Marx”. Isso, obviamente, remonta a ideia de que existiu um “jovem Marx” e um “Marx da maturidade”[5]. No fundo, o chamado “corte epistemológico” no pensamento de Marx, atribuído por Louis Althusser, é apenas uma invenção oportunista para selecionar certos textos de Marx e apresentar mais uma deformação de suas concepções. Foi Althusser, nos anos 1960, o responsável por essa divisão. Foi nessa época que brotaram duas leituras que aceitavam esse suposto “corte epistemológico”, como concepções distintas e até opostas. Para uns, a ideia de separação do pensamento de Marx era útil para defender o humanista e teórico da alienação em detrimento do radical e teórico do capitalismo, servindo inclusive para criticar e separar esse pensador do capitalismo estatal da URSS, chamado de “socialismo real”. Até religiosos e outros intérpretes reforçaram tal interpretação e também optaram pela escolha do “jovem Marx”.

Por outro lado, com outros interesses, os stalinistas e seus simpatizantes e semelhantes, a começar pelo próprio Louis Althusser, optaram pelo “Marx da maturidade”, o “economista”, “cientista”, que tratava da “economia”. Esse tipo de interpretação era útil para responder as críticas baseadas no humanismo e na alienação contra o capitalismo estatal e servia para defender tal regime. Inclusive, alguns chegaram ao absurdo de dizer que “luta de classes” era coisa de “esquerdistas” (termo usado por esses autores segundo a concepção do mais famoso e canônico deformador do pensamento de Marx, Lênin, exposta em seu livro O Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo) e o que existia e expressava a concepção marxista (logo, de acordo com o que pensaria Marx), é uma luta de sistemas: o sistema socialista (URSS, Leste Europeu, etc., ou seja, os países de capitalismo estatal, falsamente chamado de socialismo) e o sistema capitalista[6].

O que estas duas interpretações fazem é, de acordo com seus interesses (e, segundo o materialismo histórico, os interesses são a base das escolhas intelectuais dos indivíduos, grupos, classes), recortarem o pensamento de Marx para fazê-lo dizer o que ele não disse, mas que seus deformadores queriam que ele tivesse dito. Os humanistas querem recuperar um Marx que não trata do capitalismo e, especialmente, da luta de classes. Reduzem Marx ao humanismo generalista, abstrato (inclusive voltando mais ainda no seu pensamento, tal como a retomada do texto sobre a Questão Judaica) e evitam a necessidade da revolução proletária e de uma classe revolucionária. Regridem ao “socialismo sentimental” que o próprio Marx combateu (já no seu período de juventude, como se vê no filme). Os economicistas (althusserianos, stalinistas e outros) querem evitar a discussão sobre alienação e luta de classes e se refugiar na economia, interpretada não como o próprio “Marx da maturidade” fez, mas sob forma fetichista[7]. Tanto é que muitos vão trocar “sociedade capitalista” (ou burguesa) por “sistema capitalista”. A palavra-fetiche “sistema”, na moda nos anos 1950 e 1960 com a hegemonia do paradigma reprodutivista (funcionalismo, estruturalismo, teoria dos sistemas, etc.) apenas mostra que é preciso interpretar os intérpretes e que toda interpretação é produzida social e historicamente, estando perpassadas por interesses e vinculadas ao momento histórico em que são produzidas.

O filme, no entanto, não mostra essa concepção, pelo menos não explicitamente. Marx aparece no filme como um indivíduo com sua personalidade (a sua singularidade psíquica) e revela sua coragem e criticidade. A coragem de Marx como indivíduo é perceptível em toda sua história de vida e suas ações e decisões. No filme, isso aparece ao mostrar a sua expulsão da Alemanha, França e Bélgica. Sem dúvida, a sua opção intelectual (começou fazendo direito, por influência do pai, e depois passou para filosofia), o seu abandono da continuidade de pertencimento de classe, antecederam esse processo. A expulsão dos diversos países, por se recusar a se calar diante das questões de sua época, mostra a sua coragem.

Aqui temos a relação entre um indivíduo revolucionário e a coragem. Não é possível ser revolucionário sendo covarde, sendo medroso (CARLTON, 2014). No entanto, um outro elemento é que não é possível ser um indivíduo revolucionário sendo alguém que prioriza os seus interesses pessoais. Todos os indivíduos possuem interesses pessoais e todos buscam satisfazê-los. No entanto, poucos estão dispostos a sacrificar alguns destes interesses pessoais por uma causa coletiva ou pela transformação social. A sociedade capitalista encontra nos interesses pessoais uma fonte de corrupção e cooptação de indivíduos. É isso que explica o fato de inúmeros intelectuais sacrificarem o seu compromisso com a verdade para garantir a satisfação de seus interesses pessoais (dinheiro, reconhecimento, etc.). Esse não era o caso de Marx, que fez justamente o contrário, sacrificou seus interesses pessoais pela luta pela transformação social e pelo seu compromisso com a verdade.

Isso explica um outro aspecto do indivíduo Karl Marx, que é sua criticidade. Marx era um crítico radical da sociedade, das ideologias existentes e das ideias dominantes. A fonte de sua criticidade se encontra no seu humanismo radical. O filme não mostra o Marx anterior, quando ele era um humanista generalista e que pode ser lido em suas primeiras obras. O Marx apresentado no filme é aquele que já havia superado o humanismo generalista (abstrato). O seu humanismo radical aparece no filme quando Engels afirma que a revolução proletária liberta toda a humanidade. Marx afirma isso em várias obras[8] e significa que sua concepção aponta para a emancipação humana, mas esta se realiza via revolução proletária. Por isso, não há nenhum vínculo com a sociedade presente, já que sua crítica expressa a sociedade do futuro e os interesses da classe social do presente que “traz em si o futuro” (MARX e ENGELS, 1988), o proletariado. É isso que permite a “crítica desapiedada do existente”. E é isso que se vê em Marx e é demonstrado no filme: que critica a lei de roubo de madeira[9], os neohegelianos, os “socialistas sentimentais”, Proudhon, etc.

Esse aspecto essencialmente crítico do pensamento de Marx, pode parecer, para muitos, “arrogância” ou “autoritarismo”. Na verdade, Marx acreditava em suas ideias e as defendia e todos os seres humanos que possuem ideias definidas sobre algo fazem da mesma forma, até o relativista que acredita piamente e ingenuamente no relativismo como verdade. Somente os hipócritas afirmam que não consideram suas próprias ideias verdadeiras. E Marx tinha muito mais motivos para julgar que suas ideias eram verdadeiras do que milhares de outros. Podemos destacar dois motivos básicos que justificam a sua defesa enfática de suas ideias. O primeiro motivo seria o compromisso com a transformação social e com a verdade que ele sempre demonstrou, tal como o sacrifício dos interesses pessoais, elemento que já abordamos. Ora, qualquer indivíduo que vê os demais aceitando a mentira ou representações ilusórias da realidade por causa dos seus interesses pessoais já percebe os limites do pensamento de tais indivíduos e não só deles, como pode perceber os limites da própria cultura de uma época como um todo. Na Ideologia Alemã, Marx desmascara as ideologias colocando o que elas efetivamente são, os seus vínculos com a sociedade, a época, os interesses, as classes sociais (MARX e ENGELS, 1983)[10]. Se as demais pessoas tendem a aceitar as ideias dominantes e estas expressam interesses da classe dominante, bem como outros que aceitam e reproduzem mentiras, então é obvio que a crítica deve ser realizada e de forma radical.

O segundo motivo é sua produção intelectual, fundamentada em ampla pesquisa e erudição. Marx não somente conhecia profundamente a filosofia alemã (bem como outras produções filosóficas, a começar da filosofia antiga, tema de sua tese de doutorado[11]), a economia política inglesa (embora também de outros países), os socialistas franceses (dos utopistas até Proudhon), os primeiros antropólogos e historiadores, bem como até mesmo as ciências naturais e seus “manuscritos sobre matemática” mostram a amplitude de sua erudição, bem como sua recusa da especialização intelectual. Ora, se um indivíduo geralmente tem a concepção de que suas ideias são verdadeiras sem grandes reflexões e pesquisas, então é obvio que alguém como Marx tivesse muito mais razão para acreditar na veracidade de suas ideias. E poucos foram aqueles que tentaram refutá-lo[12] e, na maioria das vezes, nem sequer compreenderam suas concepções. Nesse sentido, Marx nada tinha de arrogância ou autoritarismo. O que se vê no filme é um indivíduo enérgico em suas posições e que é algo exigido na luta pela libertação humana.

O filme apresenta também o indivíduo Marx como um ser humano em sua totalidade e não apenas como “intelectual” ou “militante”, como nas concepções fetichistas. Assim, como qualquer outra pessoa, ele brinca, conversa com amigos, bebe, passa mal, convive com a família, etc.[13] Sem dúvida, alguns destes aspectos poderiam ter sido evitados no filme, mas sua inserção ocorreu provavelmente para mostrar o indivíduo em sua totalidade e maior dinamicidade ao filme.

O Pensamento de Karl Marx

O filme começa com citando trechos do texto de Marx sobre a Lei do roubo de madeira[14], texto que segundo ele mesmo, o fez se preocupar com as “questões materiais” (MARX, 1983a). É o início de suas reflexões que desembocam na constituição do materialismo histórico. O texto inaugural do materialismo histórico é Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel. Esse texto é constituído a partir das discussões e leituras que Marx realiza e que no filme aponta para o seu contato com Engels e com a leitura de Proudhon. Engels (1988) contribuiu com seu texto sobre A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, obra elogiada por Marx, e seu breve artigo sobre “Esboço de uma Crítica da Economia Política” (1978)[15]. Nesse momento, Marx está constituindo as bases do materialismo histórico, mas antes disso já tinha toda uma compreensão da dialética hegeliana e o materialismo feuerbachiano, bem como de diversos filósofos e com alguns socialistas franceses. Nesse contexto, ele amplia sua leitura dos socialistas franceses e inicia suas pesquisas sobre economia política. 

O filme não mostra o Marx anterior, que era um humanista generalista, tal como aqueles que ele combaterá posteriormente. A preocupação fundamental em Marx é a emancipação humana e isto permanece durante toda a sua vida, mas antes ele não identificava como esse processo ocorreria e, assim como os humanistas generalistas (os filantropos, socialistas “sentimentais”, etc.), considerava que isso seria tarefa da humanidade, de forma indiferenciada. No entanto, a realidade parecia desmentir isso, pois os conflitos de classes, tal como se vê nas leis sobre roubo de madeira, promove um aprofundamento que tem nas obras de Engels e Proudhon um primeiro momento de desenvolvimento da percepção luta de classes e do significado do proletariado. O humanismo generalista/abstrato se torna concreto, fundado nas relações sociais concretas, a partir da dinâmica histórica que mostra classes sociais com interesses antagônicos.

Assim, o filme mostra apenas o momento em que ele torna-se um humanista radical e fundador do materialismo histórico e começa a desenvolver sua nova concepção. O roubo de madeira e sua punição, tal como nos trechos mostrados no filme, já mostra sua nova preocupação. Depois ele vai escrever a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel[16] e a introdução desta[17], um texto posterior de dez páginas, que manifesta a primeira versão do seu humanismo radical.

Sem dúvida, o filme deixa de lado uma obra fundamental desse período: Os Manuscritos de Paris (Marx, 1983b)[18], também conhecido como Manuscritos Econômico-Filosóficos ou Manuscritos de 1844, sendo que nenhum desses títulos foi criado por Marx. Esta obra é fundamental não apenas para compreender a evolução intelectual de Marx, mas também para entender o conceito de alienação e seu humanismo, bem como para entender a constituição do materialismo histórico, pois é onde aborda a economia política pela primeira vez e aponta para a necessidade de tratar das relações sociais concretas e o antagonismo dos interesses de classe[19].

É nesse contexto que podemos entender a exposição do pensamento de Marx no universo ficcional do filme. Um elemento que se destaca é sua criticidade e radicalidade e por isso o seu enfrentamento com as diversas tendências socialistas de sua época, que vai culminar com a adoção de um nome que diferenciava o que ele defendia dos demais: comunismo.

A ideia que será fundamental em todo o pensamento de Marx é a de que “o motor da história” é a luta de classes e de que, na sociedade capitalista, se formou as condições de possibilidade do comunismo, através do proletariado, agente da emancipação humana. É justamente essa ideia de luta de classes e do proletariado como classe revolucionária que é a base da crítica de Marx ao socialismo utópico, sentimental, Proudhon, entre outros. Os embates são mostrados no filme, culminando com a sua participação na Liga dos Justos e na Liga dos Comunistas, até a elaboração do Manifesto Comunista.
Nesse contexto, o filme prioriza o rompimento com Proudhon e a atuação de Marx e Engels na Liga dos Comunistas. Desde os embates com Proudhon, incluindo suas fragilidades intelectuais[20], até a difícil entrada de Marx e Engels na Liga dos Justos e suas divergências no seu interior, chegando até a mudança do nome desta para Liga dos Comunistas, o filme focaliza os conflitos e debates no interior do movimento socialista nascente. Proudhon era o grande nome do pensamento socialista da época e por isso sua importância para o futuro do movimento, especialmente se ultrapassasse seus limites. A intenção de Marx era a de promover uma maior integração dele com o movimento socialista e levá-lo a superar seus equívocos. Isso, no entanto, não se concretizou, pois Proudhon se recusou tanto a avançar intelectualmente (ficando preso em suas concepções, por mais que fossem criticadas e sem ter condições de responder) quanto politicamente, ao não querer aderir ao trabalho coletivo proposto por Marx[21]. A influência de Proudhon no movimento socialista era evidente e os seus equívocos eram mais nocivos ainda por causa disso. Assim surge A Miséria da Filosofia, obra em que Marx demonstra os equívocos metodológicos e “econômicos” de Proudhon e marca o início do fim da hegemonia deste no movimento socialista.

Um dos elementos que se destaca no filme é a luta política de Marx. Desde sua produção jornalística e intelectual até sua inserção na Liga dos Justos e suas disputas internas, até a redação do Manifesto Comunista. Um dos primeiros embates de Marx é contra o chamado “socialismo sentimental”. A ideia de que todos os seres humanos são irmãos, uma fraternidade universal, é combatida por Marx enfaticamente. O socialismo utópico trazia esse elemento que era produto, como mais tarde Marx vai colocar no Manifesto Comunista e Engels no seu texto sobre essa tendência, do incipiente desenvolvimento do movimento operário. O movimento operário precisaria se fortalecer para superar o utopismo[22]. O seu embate com essas concepções incipientes de um movimento operário incipiente pode ser vista no filme em sua polêmica com Proudhon, com Wetling, entre outros. As ideias de “felicidade do povo”, “fraternidade”, “justiça”, vistas de forma abstratificada, deveriam ser substituídas por um saber real, fundamentado e embasado na realidade. O processo de transformação passa a ser concebido, assim, como luta de classes. Essa não é uma outra ideia que se põe à ideia anterior e sim uma concepção fundada na experiência histórica, pois, “a história das sociedades tem sido, até hoje, a história da luta de classes” (MARX e ENGELS, 1988).

Esse embate de Marx (e Engels) contra o sentimentalismo ingênuo não somente teve uma importância histórica, como mantém sua atualidade. Porém, a tragédia do passado é a farsa do presente. A razão da existência do socialismo sentimental era o desenvolvimento incipiente da luta proletária, mas hoje, depois de inúmeras lutas e tentativas de revolução, bem como toda uma produção teórica desenvolvida, a começar pelas obras de Marx, é apenas produto da força da hegemonia burguesa sobre a maioria da população e das tendências oposicionistas. O retorno do sentimentalismo, a recusa da teoria, o irracionalismo, são apenas expressões do novo paradigma hegemônico, o subjetivismo, que acaba tendo impacto nas tendências oposicionistas. Não deixa de ser curioso como isso é reproduzido por determinados partidos de esquerda. A crítica de Marx ao socialismo sentimental mantém sua atualidade, não nas formas corrompidas existentes nas lutas políticas, mas na influência dessas sobre o conjunto do movimento. Os partidos de esquerda são hoje a porta de entrada das ideologias burguesas nas lutas políticas na contemporaneidade. Os modismos contemporâneos, no entanto, são apenas mais um sinal da barbárie cultural capitalista que marca um retrocesso civilizacional que acompanha o desenvolvimento da sociedade moderna, que avança no sentido da decomposição.

A relação com Proudhon é apresentada em toda sua complexidade. Ao contrário das simplificações, o filme consegue mostrar que Marx mantinha uma posição crítica em relação a Proudhon, embora reconhecesse alguns méritos em sua obra mais importante, O que é a Propriedade? Proudhon era um escritor prolífico e mais renomado socialista francês da época, e por isso tinha uma importância estratégica no movimento socialista. Nesse sentido, Marx tenta se aproximar de Proudhon e tenta fazê-lo avançar. No entanto, Proudhon tinha determinados limites intelectuais, especialmente no âmbito da compreensão do capitalismo (“economia”) e no que se refere ao método, dois elementos inseparáveis. Marx realiza algumas críticas, mas é com a publicação da obra A Filosofia da Miséria, que ocorre o processo de ruptura, que se concretiza com a publicação de A Miséria da Filosofia. A cena em que, quando Marx faz um discurso criticando Proudhon e uma operária diz que “Proudhon é um grande homem” e ele concorda complementando “mas não é um grande economista”, sintetiza o significado da crítica de Marx.

O filme traz também um elemento que muitos desconhecem na biografia de Marx, que é sua atuação na Liga dos Justos, posteriormente denominada Liga dos Comunistas[23]. A difícil entrada na Liga dos Justos e os embates internos posteriores, com a sua transformação em Liga dos Comunistas, produto da luta interna e avanço da consciência no seu interior graças às intervenções de Marx e Engels. O lema da fraternidade é substituído pelo lema da luta de classes. Uma nova etapa emerge para esta organização e para o movimento operário.

Isso culmina com a redação do Manifesto Comunista. O filme mostra a encomenda da Liga dos Comunistas de um manifesto e elementos do seu processo de produção. As dificuldades de Marx, o cansaço que ele alega, entre outros elementos, fornecem o pano de fundo do texto que se tornou um manifesto do movimento operário. Neste contexto, o nome “comunismo” emerge para diferenciar a posição de Marx das demais tendências socialistas da época. O embate que gerou a mudança do nome de Liga dos Justos para Liga dos Comunistas foi um primeiro momento[24]. O Manifesto Comunista é um texto-síntese e programático que expressava o mais alto grau de consciência revolucionária da perspectiva do proletariado. A história passa a ser vista com sendo da luta de classes, o proletariado é apresentado como a classe revolucionária, bem como o desenvolvimento da sociedade moderna, suas tendências e contradições, assim como a crítica das tendências socialistas e um projeto de revolução social. Nesse momento, “o espectro do comunismo ronda a Europa”.

Assim, o filme tem outro mérito que é mostrar o processo de formação do pensamento de Karl Marx e isso é algo que contribui com a superação das leituras descontextualizadas e que não percebem a evolução intelectual de um pensador. A teoria do mais-valor, por exemplo, será constituída depois desse período e, por conseguinte, o elemento fundamental que caracteriza o proletariado ainda está ausente no Manifesto Comunista. Mas o filme mostra o seu contato inicial do Engels e, depois disso, com a economia política inglesa, entre outros elementos que ajudam a compreender a evolução intelectual de Marx.

Considerações Finais

Assim, o filme O Jovem Karl Marx, é uma excelente obra cinematográfica que, sem dúvida, ajudará na divulgação e compreensão do pensamento do teórico revolucionário que se tornou a maior referência intelectual para todos que querem transformar o mundo. O pensador mais deformado da história do pensamento da humanidade e muito mal compreendido, ganha um retrato relativamente fiel de sua evolução política e intelectual. O filme também traz uma lição para todo militante: ser revolucionário pressupõe coragem, radicalidade e criticidade. Nesse sentido, é um filme que deve ser assistido, debatido e se tornar mais um material a ser utilizado na luta cultural por uma sociedade radicalmente diferente.




Referências



CARLTON, Erich. O Medo, a Coragem e a Política. Revista Marxismo e Autogestão. Vol. 01, num. 02, 2014. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rma/article/view/14carlton2/120

ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. 2a edição, São Paulo, Global, 1988.

ENGELS, Friedrich. Esboço para uma Crítica da Economia Política. Revista Temas de Ciências Humanas, ano 1, num. 2, 1978.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista. Petrópolis: Vozes, 1988.

MARX, Karl. A Liberdade de Imprensa. Porto Alegre: LPM, 1978.

MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. 2ª edição, São Paulo: Global, 1989.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2a edição, São Paulo: Martins Fontes, 1983a.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Lisboa: Estampa, 1979.

MARX, Karl. Critica de la Filosofia del Derecho de Hegel. Notas Aclaratorias de Rodolfo Mondolfo. Buenos Aires: Ediciones Nuevas, 1968.

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. In: FROMM, Erich. O Conceito Marxista do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1983a.

MOTTA, Fernando Prestes. Burocracia e Autogestão: A Proposta de Proudhon. São Paulo, Brasiliense, 1981.

SANTOS, Theotônio dos. Forças Produtivas e Relações de Produção. Petrópolis: Vozes, 1988.

VIANA, Nildo. A Consciência da História. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

VIANA, Nildo. Karl Marx: A Crítica Desapiedada do Existente. Curitiba: Prismas, 2017.





[2] Isso pode ser notado, por exemplo, quando Marx diz para Bakunin que não é anarquista, afirmação que não poderia ter sido dita, pois o anarquismo vai ser reconhecido como tendência política (e Bakunin como seu representante) no futuro, nos embates na AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores). Da mesma forma, quando afirma que o Manifesto Comunista é de um “partido ainda não existente”, é outro anacronismo, pois o termo “partido” tem o significado de posição política e os partidos políticos propriamente ditos vão surgir algumas décadas depois. Outro deslize é quando algumas frases do Manifesto Comunista são citadas, pulando trechos e permitindo, para quem não conhece a obra de Marx, uma interpretação equivocada do que ele disse. O uso do termo “sistema” é outro caso, pois Marx usava “sociedade” e não “sistema”. Esses anacronismos e deslizes, no entanto, não chegam a comprometer o filme, que mantém, de forma surpreendente, uma fidelidade ao pensamento de Marx.

[3] Há, inclusive, algumas cenas do filme que visam, justamente, a torná-lo mais dinâmico, como, por exemplo, o pesadelo de Marx, a fuga da polícia francesa de Marx e Engels, etc. Obviamente que, para pessoas que desconhecem Marx, sua biografia e sua história, ou que não tem afinidade política com ele ou informações sobre o contexto histórico, a compreensão de certas passagens e a atratividade tende a ser menor.

[4] Peck produziu outros filmes como, por exemplo, “Eu Não Sou Seu Negro”, que tematiza a questão racial.

[5] Para uma crítica mais aprofundada a essa suposta divisão do pensamento de Marx, cf.: http://2012.nildoviana.com/wp/wp-content/uploads/2012/09/O-Fim-do-Marxismo-VERS%C3%83O-04-09-2007.pdf

[6] Veja: Santos (1988).

[7] A concepção de Marx tem como centro o modo de produção (que, nas sociedades classistas, são relações de classes, luta de classes) e ele mesmo já criticava o que denominou “reificação das relações de produção” e forças produtivas. Sobre isso, veja: Viana (2007).

[8] Manuscritos de Paris, Manifesto Comunista, Ideologia Alemã.

[9] Muitos, seguindo a distinção jurídica entre furto e roubo, traduzem o texto de Marx como “furto”. No entanto, o termo alemão Diebstahl pode ser traduzido sob as duas formas, embora o uso mais geral para traduzir furto seja Raub. Independente disso, o termo roubo é mais utilizado e a concepção juridicista pouco acrescenta à compreensão dos fenômenos sociais. Preferimos traduzir por roubo, por seu uso mais antigo nas traduções, de uso corrente na linguagem cotidiana e por considerar que tal termo expressa toda e qualquer apropriação de bens pertencentes a outros, sendo que o termo furto seria aplicado ao roubo sem uso de violência e assalto para o roubo no qual há o uso da violência (pois a distinção jurídica entre furto e roubo é exatamente essa, sendo que o primeiro seria sem uso da violência e o segundo com uso da mesma).

[10] Segundo dizem alguns, baseando-se na correspondência entre Marx e Engels, este último teria escrito apenas seis páginas do livro. A colaboração com Engels em “A Sagrada Família” (1979) não é coautoria, pois cada capítulo tem uma autoria determinada de um dos dois.

[11] A Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro (MARX, 1978).

[12] Não se trata aqui das pseudocríticas e sim de crítica que é fundamentada. As diversas formas de pseudocrítica, como ataques pessoais, mentiras, simplificações grosseiras e deformações, decontextualização, etc. foram produzidas em grande quantidade.

[13] Somente os ingênuos pensam que os grandes pensadores ou revolucionários não possuem problemas diversos, emoções, fraquezas, variação de humor, puerilidade, etc. Marx é como qualquer outro grande pensador, ou seja, um ser humano, com todas as implicações disto e o filme mostra parte disso e assim ajuda os incautos a perceberem algo relativamente óbvio.

[14] Artigo publicado em A Gazeta Renana, em cinco partes, que será, segundo o filme, o estopim para sua expulsão da Alemanha e fechamento da revista. Nesse mesmo período, Marx vai escrever um conjunto de textos sobre liberdade de imprensa (1980).

[15] O grande mérito deste texto é ter colocado que as chamadas “categorias econômicas” (conceitos produzidos pela ciência econômica para expressar o processo de produção e distribuição das riquezas) são históricas. Isso será retomado e desenvolvido por Marx, especialmente em A Miséria da Filosofia (1989).

[16] Trata-se de longo artigo publicado em A Nova Gazeta Renana e que muito tempo depois será publicado como livro por algumas editoras (MARX, 1978).

[17] Um pequeno artigo publicado sob diversas formas, inclusive como livro (MARX, 1968), sendo que sua publicação inicial foi também em A Nova Gazeta Renana.

[18] Alguns poderiam dizer que seria melhor citar a tradução da editora Boitempo. No entanto, trata-se de um mito a afirmação de que as traduções dessa editora sejam melhores do que as demais. Inclusive, algumas são evidentemente piores do que outras que já são problemáticas. Esse é o caso da tradução dos Manuscritos Econômico-filosóficos, que é uma deformação da obra e, mais explicitamente, do conceito de alienação (que é transformada, idealisticamente, em “estranhamento”). Aliás, no filme Proudhon afirma que Grün estava traduzindo os Anuários Franco-Alemães (ou Anais Franco-Alemães), e Marx retoma o ditado (“tradução, traição”) para dizer que ele deve estar “traindo” a publicação e o mesmo se faz abundantemente com Marx, tal como a Editora Boitempo.

[19] Há um trecho no qual ele está lendo os economistas ingleses, após indicação de Engels, que pode ser interpretado como leitura que desembocaria em tal obra, mas como não há referência no filme, então isso é mera suposição.

[20] O questionamento da afirmação de Proudhon segundo a qual “a propriedade é um roubo” constitui não só um momento do filme em que se esclarece as divergências entre ambos e suas motivações, como também permite criar uma atratividade no filme, ao mostrar a redundância da concepção proudhoniana, o que reaparece na questão do subtítulo do livro A Sagrada Família, “crítica da crítica crítica”, e no fato de Marx defender Proudhon contra os neohegelianos, que ganha um efeito de comicidade com o questionamento de Bakunin.

[21] Sobre a relação entre Marx e Proudhon, veja-se: Motta (1981). O texto de Motta aponta para o elemento de que a crítica de Marx em relação a Proudhon é apenas no âmbito “econômico” (e no filme há cenas sobre isso, quanto trata do conceito de propriedade ou afirma que Proudhon “não é um grande economista”) e não político (o federalismo que apontaria para a “autogestão”). Sem dúvida, a crítica de Marx a Proudhon é fundamentalmente no que diz respeito à sua concepção de “economia” e, ao mesmo tempo, no que se refere ao método, pois Proudhon confunde ideias e realidade, o que é distante tanto do materialismo histórico quanto do método dialético. No plano político, Marx não realizou nenhuma crítica a Proudhon, mas havia algumas divergências de pormenores (ação política, federalismo, etc.), mas não tratou delas, já que o objetivo era, pelo menos inicialmente, integrar as distintas concepções numa ação conjunta. Marx também considerou as contribuições de Proudhon, especialmente por chamar atenção para o significado do proletariado (apesar de suas imprecisões e confusão a respeito), não apenas na Sagrada Família, mas também posteriormente.

[22] Não se deve confundir a crítica do utopismo com a recusa de apresentar um projeto de sociedade. O que Marx criticava no utopismo eram os planos detalhados dos socialistas utópicos (como Fourier e sua proposta detalhada de 700 falanstérios, por exemplo) e a falta de análise do processo de constituição da nova sociedade (o socialismo aparecia como produto de planos intelectuais, da bondade e filantropia, etc.). Isso não tem nada a ver com a recusa de pensar a sociedade comunista e ele próprio fez várias considerações sobre a sociedade futura, partindo tanto do vislumbre racional que permite projeções para o futuro quanto da análise das experiências históricas, como ele fez no caso da primeira experiência de revolução proletária, a Comuna de Paris (VIANA, 2017).

[23] Engels escreveu um breve texto sobre a história da Liga dos Comunistas, publicado no Brasil como anexo ao Manifesto Comunista em uma de suas edições (MARX e ENGELS, 1988).

[24] No futuro, a palavra “comunismo” será substituída nos partidos pseudomarxistas por “social-democracia”, termo que o próprio Marx criticará (e que ele usava justamente para denominar os setores “pequeno-burgueses” nas lutas de classes). Posteriormente, a crise e ruptura no interior da social-democracia vai gerar o retorno da palavra “comunismo”, numa versão deformada (bolchevista) e numa versão coerente com a perspectiva do proletariado e com o pensamento de Marx (o chamado “Comunismo de Conselhos”).